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Quando o Capital Ganha do Trabalho: Como a Nova Economia Redesenha a Distribuição da Renda

Por Wellington Sena

 

Nas últimas quatro décadas, a economia global — especialmente a dos Estados Unidos — passou por uma transformação silenciosa, porém profunda: a fatia da renda destinada ao trabalho encolheu, enquanto a parcela que vai para o capital cresceu de forma consistente. Esse movimento, que começou com a automação industrial e se intensificou com o avanço das big techs, ajuda a explicar por que os indicadores econômicos parecem tão positivos, mas muitos trabalhadores continuam sentindo que estão ficando para trás.

O ponto de partida dessa mudança está na própria estrutura produtiva. Nos anos 1980, a maior parte do valor gerado pelas empresas era distribuída em salários e benefícios. Hoje, uma parcela crescente vai para lucros, juros e remuneração de acionistas. Segundo dados recém divulgados no Wall Street Journal, em 1980, o trabalho recebia 58% da renda gerada; recentemente, esse número caiu para cerca de 51%. Em paralelo, os lucros corporativos subiram de 7% para quase 12%. É uma mudança estrutural, não conjuntural.

Um exemplo emblemático dessa transformação é a comparação entre IBM e Nvidia. Em 1985, a IBM era a empresa mais valiosa dos EUA e empregava quase 400 mil pessoas. Hoje, a Nvidia vale quase 20 vezes mais — ajustado pela inflação — e emprega apenas um décimo desse contingente. A mensagem é clara: empresas modernas conseguem gerar valor extraordinário com muito menos trabalhadores, graças à tecnologia e à automação.

A perda de força dos sindicatos e o avanço da terceirização também contribuíram para reduzir o poder de barganha dos trabalhadores. Ao mesmo tempo, o tipo de capital necessário para produzir riqueza mudou. Em vez de fábricas, máquinas e galpões, as empresas passaram a investir em software, algoritmos, sistemas operacionais e propriedade intelectual — ativos que exigem menos mão de obra e precisam ser renovados com mais frequência.

A automação industrial foi o primeiro grande vetor dessa mudança. Nos anos 1980, dois terços do valor gerado pelas fábricas iam para os trabalhadores. Nas décadas seguintes, esse percentual caiu para 45%. A produtividade aumentou, os produtos ficaram mais baratos, mas muitos trabalhadores que antes teriam empregos industriais bem remunerados migraram para funções de menor salário no setor de serviços. Essa transição explica boa parte da queda da participação do trabalho na renda total.

Com a ascensão das big techs, o fenômeno ganhou uma nova dimensão. Empresas como Alphabet, Microsoft e Meta conseguem crescer rapidamente sem aumentar proporcionalmente o número de funcionários. A Alphabet, por exemplo, aumentou sua receita em 43% nos últimos três anos, mas manteve o quadro de funcionários praticamente estável. Mesmo a Amazon, que emprega centenas de milhares de pessoas, vem reduzindo postos de trabalho com a automação de seus centros de distribuição.

O período póspandemia reforçou essa tendência. Embora os salários reais tenham subido modestos 3% desde 2019, os lucros corporativos dispararam 43%. O mercado acionário, impulsionado por margens de lucro recordes, elevou a riqueza das famílias mais ricas a níveis inéditos: o valor das ações que elas possuem equivale hoje a quase 300% de sua renda anual disponível. Isso significa que, para uma parcela da população, oscilações na bolsa influenciam mais o consumo do que o próprio salário.

Esse cenário se torna ainda mais complexo com a chegada da inteligência artificial generativa. Segundo especialistas, a IA não substitui apenas funções específicas, mas atua como um “substituto geral do trabalho humano”. Isso abre espaço para empresas extremamente produtivas e pouco intensivas em mão de obra, capazes de competir com gigantes tradicionais usando equipes muito menores. O impacto tende a ser especialmente forte sobre trabalhadores qualificados de escritório, que antes se consideravam protegidos da automação.

Apesar dos riscos, há também vencedores nesse processo. Profissionais cujas atividades exigem habilidades sociais, presença física ou destreza manual tendem a ser menos afetados pela IA. Consumidores, por sua vez, se beneficiam de produtos e serviços mais baratos. Mas os maiores ganhadores são, sem dúvida, os acionistas — que capturam a maior parte do valor gerado por empresas cada vez mais eficientes e menos dependentes de mão de obra.

No fim das contas, a economia contemporânea está se reorganizando em torno de um modelo no qual o capital — e não o trabalho — é o principal motor da geração de riqueza. Essa mudança ajuda a explicar tanto o dinamismo dos mercados quanto a sensação de estagnação entre trabalhadores comuns. O desafio das próximas décadas será encontrar formas de distribuir os ganhos da tecnologia de maneira mais equilibrada, evitando que a prosperidade crescente se concentre nas mãos de poucos.