
Por Wellington Sena
A maioria da população está com sérios problemas de dissonância cognitiva e dissonância psíquica, que a verdade não mais se impõe, porque nós não temos mais tirocínio ou lucidez para perceber as coisas.
A frase acima pode ser aplicada perfeitamente à reação coletiva ao assassinato de John F. Kennedy, em 1963, que, 62 anos depois, ainda se encontra envolto em teorias da conspiração, fragmentos de verdades e manipulações de informações. Esse evento não foi apenas um choque para a nação americana, mas também um ponto de ruptura na percepção da verdade pelo público, gerando uma espécie de cegueira cognitiva ao longo das décadas.
No cenário atual, como bem apontado por Jan Val Ellam, muitos enfrentam problemas profundos de dissonância cognitiva e psíquica. Essas condições psicológicas, caracterizadas pela desconexão entre crenças pessoais e a realidade, tornam a verdade cada vez mais difícil de se impor, pois, para muitos, a capacidade de discernir o que é verdadeiro tem se tornado frágil. Este fenômeno se reflete não apenas nas questões cotidianas, mas também em eventos históricos que ainda permanecem envoltos em mistério e manipulação, como o assassinato de John F. Kennedy (JFK), ocorrido em 1963.
Na data fatídica do 62º aniversário da morte de JFK, ainda restam inúmeras perguntas não respondidas, e muitas teorias continuam a circular sobre quem realmente se beneficiou com sua eliminação. O caso JFK é um exemplo claro de como a dissonância cognitiva pode manipular a percepção coletiva. Assim como no exemplo fornecido por Ellam, a população foi levada a aceitar uma narrativa simplificada, quando, na verdade, o assassinato de JFK envolve uma rede complexa de interesses políticos, econômicos e até mesmo criminais.
Para entender o quanto a dissonância cognitiva impactou a compreensão pública sobre o assassinato de JFK, é necessário examinar as várias partes interessadas envolvidas. De acordo com o livro “JFK: Marcado para Morrer”, de Gary Fannin e Tim Brennan, diversas organizações teriam muito a perder com a sobrevivência de Kennedy. Entre elas, o FBI, a CIA, a Máfia, grandes empresários do petróleo do Texas e, até mesmo, o então vice-presidente Lyndon B. Johnson.
Uma dessas partes é o Complexo Industrial Militar, que, como mencionado, teria perdido milhões caso Kennedy tivesse seguido com sua intenção de retirar as tropas americanas do Vietnã. O petróleo texano, representado por magnatas como H. L. Hunt e Clint Murchison, também estava em jogo, pois Kennedy pretendia revisar o imposto sobre o esgotamento do petróleo, algo que reduziria significativamente os lucros dessas empresas.
No entanto, ao longo das décadas, o público americano foi condicionado a aceitar uma versão oficial simplificada: Lee Harvey Oswald agiu sozinho. Esta narrativa é um reflexo direto da dissonância cognitiva que mencionamos anteriormente. As pessoas, incapazes de lidar com a complexidade e as consequências reais de uma conspiração envolvendo várias agências e organizações, aceitaram a solução mais “confortável” apresentada pela Comissão Warren.
A dissonância cognitiva refere-se ao desconforto causado quando crenças ou percepções são contraditas ou desafiadas por novas informações. No caso do assassinato de JFK, essa dissonância foi exacerbada por investigações falhas, relatos contraditórios e a liberação parcial de documentos por décadas. Inicialmente, a Comissão Warren concluiu que Lee Harvey Oswald agiu sozinho. No entanto, investigações posteriores, como a do Comitê de Assassinatos da Câmara dos EUA (HSCA) em 1979, indicaram que provavelmente houve um segundo atirador, levantando a hipótese de uma conspiração mais ampla.
Em muitos aspectos, essa fragmentação da verdade contribuiu para a multiplicação de teorias da conspiração, com cada órgão acreditando em uma versão diferente dos eventos. Os debates sobre o envolvimento da máfia, da CIA, de Lyndon Johnson, e até da União Soviética continuam até hoje. Um exemplo notório dessa complexidade é o envolvimento sugerido da máfia de Chicago, que supostamente ajudou a eleger Kennedy, mas que teria se voltado contra ele devido às políticas agressivas de seu irmão, Robert Kennedy, contra o crime organizado e a prisão de vários mafiosos.
Manipulação da Informação e o Papel da Mídia
A mídia, desempenhando um papel crucial na formação da opinião pública, também foi uma das ferramentas mais eficazes no controle da narrativa sobre o assassinato de JFK. Segundo Fannin e Brennan (JFK – Marcado para Morrer), a CIA, em particular, fortaleceu seu domínio sobre os meios de comunicação americanos após a morte de Kennedy. A manipulação midiática contribuiu para a continuidade da dissonância cognitiva em relação ao caso JFK, mantendo a verdade fora do alcance da maioria da população.
O massacre de Kennedy, descrito como um “clássico assassinato romano” por Tim Brennan, foi realizado por uma coligação de interesses ocultos, mas a magnitude do crime serviu como justificativa para que muitos preferissem não buscar respostas mais profundas. Aqui, a famosa frase de Hannah Arendt, citada no prefácio do livro, ecoa fortemente: “Onde todos são culpados, ninguém o é”.
Um Chamado à Lucidez
A psicologia social nos mostra que a incapacidade de processar eventos chocantes ou complexos, especialmente quando as informações são ambíguas ou contraditórias, leva à criação de narrativas alternativas para explicar o inexplicável. O assassinato de JFK é um dos maiores exemplos disso, com 95% dos livros publicados sobre o tema apoiando teorias de conspiração.
Além disso, a recente liberação de milhares de documentos anteriormente confidenciais sobre o caso, embora tenha revelado novas informações, também reforçou a sensação de que a verdade completa ainda não foi divulgada. Essa percepção perpetua o estado de dissonância cognitiva, em que muitos preferem aderir a versões simplificadas ou conspiratórias, ao invés de confrontar as complexidades da realidade.
Ao celebrarmos 62 anos da morte de JFK, é essencial que continuemos questionando as narrativas oficiais e analisando criticamente os dados disponíveis, em busca da verdade que há muito tempo está fragmentada. Mais do que isso, o caso JFK serve como um lembrete sombrio de como a manipulação da informação e a negação da verdade podem gerar um abismo entre a percepção pública e a realidade.