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Entre Números e Realidades: O Avanço do IDH e o Brasil que Permanece à Margem

Por Wellington Sena

 

O avanço do IDH brasileiro, que alcançou 0,805 segundo o Radar IDHM 2024, representa um marco histórico ao inserir o país pela primeira vez no grupo de muito alto desenvolvimento humano. Esse indicador sintetiza melhorias em renda, educação e longevidade, sugerindo um progresso estrutural importante. No entanto, quando confrontado com a realidade social cotidiana, o índice revela apenas parte da história: o Brasil vive simultaneamente avanços estatísticos e retrocessos sociais que desafiam a interpretação otimista dos números.

Apesar da elevação do IDH, as desigualdades raciais permanecem profundas. Estudos associados ao IBGE mostram que a população negra apresenta um IDHM cerca de 10% inferior ao da população branca, refletindo desigualdades históricas no acesso à educação, renda e serviços públicos. Esse abismo racial não apenas persiste, como se manifesta em múltiplas dimensões da vida urbana, desde a maior exposição à violência até a menor mobilidade social. Assim, o progresso médio do país esconde realidades paralelas que convivem de forma tensa.

Outro contraponto relevante é o crescimento da população em situação de rua, que aumentou de forma expressiva na última década. Enquanto o IDH aponta melhoria geral de condições de vida, milhares de brasileiros enfrentam a completa ausência de moradia, renda e assistência. Esse fenômeno é impulsionado por fatores como desemprego estrutural, dependência química, transtornos mentais e insuficiência de políticas públicas. A presença crescente de pessoas vivendo nas ruas desafia a narrativa de desenvolvimento humano pleno.

A expansão da população de rua também se relaciona com a fragilidade das redes de proteção social, que não acompanharam o ritmo das transformações econômicas e urbanas. Em muitas cidades, a ausência de políticas integradas de saúde mental, habitação e reinserção laboral cria um ciclo de exclusão difícil de romper. Assim, mesmo com indicadores nacionais positivos, a precarização da vida urbana se torna visível e cotidiana.

Paralelamente, o país enfrenta um aumento da criminalidade organizada, que se territorializa e se estrutura com sofisticação crescente. Facções criminosas expandiram sua presença para além dos grandes centros urbanos, alcançando cidades médias e pequenas, além de áreas rurais. Relatórios de segurança pública indicam que cerca de um quarto da população brasileira vive em áreas sob influência direta ou indireta de grupos armados, o que compromete a autonomia do Estado e a sensação de segurança.

Esse domínio territorial das facções afeta profundamente o cotidiano das comunidades. Em muitos bairros, regras paralelas são impostas, restringindo horários, circulação e até formas de convivência. A presença desses grupos interfere em dinâmicas econômicas locais, no funcionamento de serviços públicos e na própria relação entre moradores e instituições estatais. O desenvolvimento humano, nesses contextos, é limitado por barreiras que não aparecem nos indicadores agregados.

O tráfico de drogas, por sua vez, continua sendo um dos motores centrais da economia criminal. Ele alimenta disputas territoriais, homicídios e redes de corrupção que atravessam fronteiras estaduais e nacionais. Embora o IDH capture avanços em educação e saúde, ele não mensura diretamente a erosão institucional causada pelo crime organizado, nem o impacto psicológico da violência cotidiana sobre as comunidades.

A sensação de insegurança, portanto, não é apenas subjetiva: ela se fundamenta em experiências concretas de violência, coerção e ausência do Estado. Em regiões dominadas por facções, moradores vivem sob constante vigilância e medo, o que afeta desde a frequência escolar até a atividade econômica. O desenvolvimento humano, nesses territórios, é profundamente condicionado por fatores que escapam às métricas tradicionais.

Esse contraste entre melhoria estatística e deterioração social revela uma contradição estrutural: o Brasil avança em indicadores médios, mas enfrenta desafios profundos na distribuição equitativa desses avanços. O IDH, embora útil, não captura integralmente a complexidade das desigualdades raciais, da exclusão urbana e da violência organizada. Ele aponta uma direção, mas não descreve o terreno acidentado que muitos brasileiros percorrem diariamente.

Assim, o debate sobre desenvolvimento humano no Brasil exige uma leitura crítica que vá além dos números. É necessário articular indicadores quantitativos com realidades sociais qualitativas, reconhecendo que o país vive simultaneamente progresso e vulnerabilidade. O desafio contemporâneo é transformar avanços estatísticos em avanços concretos, reduzindo desigualdades, fortalecendo o Estado e garantindo que o desenvolvimento humano seja, de fato, humano — e não apenas numérico.