
Por Wellington Sena
A defasagem do preço do diesel no Brasil voltou ao centro do debate econômico e logístico do país. Com o combustível chegando a custar até 74% menos no mercado interno do que no mercado internacional, segundo levantamento da Abicom, cria-se um cenário de distorção que ameaça tanto o abastecimento quanto a estabilidade do transporte de cargas. Essa diferença, que beira os R$3,00 por litro, não é apenas um número técnico: ela afeta diretamente a cadeia produtiva, a competitividade e a segurança energética nacional.
O Brasil depende da importação de aproximadamente 30% do diesel que consome, já que sua capacidade de refino não é suficiente para atender à demanda interna. Quando o governo ou a Petrobras mantêm o preço doméstico artificialmente abaixo da paridade internacional, o resultado é imediato: importadores deixam de trazer o produto, pois vender no Brasil passa a ser um mau negócio. Sem margem, as operações são canceladas, e o risco de desabastecimento cresce rapidamente.
Esse descompasso ocorre em um momento de forte volatilidade no mercado global de energia. Tensões geopolíticas no Oriente Médio, especialmente envolvendo o Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo — pressionam o preço do Brent e dos derivados. Com o diesel internacional subindo mais rápido que o petróleo bruto, a defasagem brasileira se amplia ainda mais, agravando o problema.
A consequência direta desse cenário é o aumento do temor de um apagão logístico. O diesel é o combustível que move a maior parte do transporte de cargas no país, incluindo alimentos, medicamentos e insumos industriais. Se o produto some ou encarece abruptamente, o frete para, as prateleiras esvaziam e a inflação dispara. A história econômica mundial mostra que congelar preços nunca funcionou: a curto prazo, pode aliviar o bolso do consumidor; a médio prazo, destrói a oferta e gera escassez.
Do outro lado dessa equação estão os caminhoneiros, que já sinalizam insatisfação com a política de preços e com o risco de desabastecimento. A categoria, historicamente sensível às oscilações do diesel, teme que a instabilidade atual resulte em aumentos bruscos no futuro ou em falta de combustível nas estradas. A ameaça de greve, portanto, não é apenas retórica: ela reflete a percepção de que o setor está à beira de um colapso operacional.
A ABICOM alerta que, embora o abastecimento de curto prazo esteja garantido, o cenário para os próximos meses é de insegurança. Importadores já reduziram volumes, e não há previsão robusta de novas compras para abril. Em regiões mais dependentes de importação — como Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste —, o risco de ruptura é ainda maior. Nessas áreas, a logística depende fortemente de refinarias privadas e de operações portuárias sensíveis à variação de preços.
A Petrobrás, por sua vez, tem adotado uma estratégia de suavizar repasses da volatilidade internacional ao mercado interno. Embora essa política busque proteger o consumidor, ela também amplia a defasagem e pressiona o caixa da estatal, que responde por cerca de 80% do refino nacional. A empresa se vê diante de um dilema: reajustar preços e enfrentar desgaste político, ou mantê-los congelados e arriscar um desabastecimento que afetaria toda a economia.
Em suma, o Brasil vive um momento crítico em sua política de combustíveis. A defasagem do diesel não é apenas um problema contábil: é um fator que ameaça a segurança energética, a estabilidade logística e o equilíbrio inflacionário. Sem uma política transparente, previsível e alinhada ao mercado internacional, o país corre o risco de repetir erros históricos. E, como sempre, quem paga a conta é a população — seja no preço do frete, na inflação ou na falta de produtos essenciais.
Wellington Sena é Policial Rodoviário Federal desde 2005, atua na gestão de veículos recolhidos da PRF-PB.