
Por Wellington Sena
Por Wellington Sena
Futebol, como diz o velho ditado, é mesmo uma caixinha de surpresas. E naquele final de tarde nublado em João Pessoa, quando cheguei em casa depois de um dia cansativo de trabalho, tudo o que eu queria era fugir das manchetes sombrias da política e da criminalidade que assolam nosso Brasil. Liguei a TV e, como quem encontra abrigo, me deparei com mais uma partida da última rodada da primeira fase da Copa do Mundo FIFA nos Estados Unidos. O Brasil já estava classificado, aguardando o Japão no mata-mata — ou, como agora chamam, os dezesseis-avos de final. Para chegar à finalíssima, seriam necessárias oito batalhas, cinco delas de vida ou morte. A partida entre Alemanha e Equador estava começando.
E ali, entre idas e vindas pela sala do apartamento onde moro com minha esposa e nossos dois filhos, o improvável começou a tomar forma. Logo nos primeiros minutos, a Alemanha abriu o placar com Leroy Sané, aproveitando um bate-rebate na área e chutando no canto direito do goleiro Hernán Galíndez. O lance anterior, porém, tinha sido uma falta clara — um “pé-alto” escancarado na cabeça do defensor equatoriano. Ainda assim, a árbitra norte-americana Tori Penso validou o gol. A FIFA insiste: a escolha de árbitras é baseada em qualidade e desempenho, não em gênero.
A partida parecia despretensiosa. A Alemanha já estava classificada, precisando apenas confirmar a vitória para alcançar os brilhantes nove pontos. No outro jogo do grupo, Costa do Marfim enfrentava a já eliminada Curaçao. Tudo parecia previsível — até que o futebol decidiu lembrar ao mundo por que é o esporte mais apaixonante que existe.
O técnico alemão Julian Nagelsmann parecia um monge em busca do Nirvana. Do outro lado, Sebastián Beccacece, argentino e comandante do Equador, parecia rezar aos deuses do futebol para evitar uma goleada humilhante e, quem sabe, manter o emprego. Mas o que prometia ser uma nova Blitzkrieg — como o 7 a 1 aplicado sobre Curaçao — virou poesia do inesperado. Aos nove minutos, Nilson Ángulo acertou um chute magnífico de fora da área e empatou o jogo, arrancando gritos de surpresa e alegria dos equatorianos presentes no estádio de Nova York, em Nova Jersey.
A partir dali, fui sendo tragado pela partida. Meus filhos falavam, minha esposa chamava, mas eu já não ouvia mais nada. Era um “toma-lá-dá-cá” como há tempos eu não via em uma fase de grupos. Enquanto Alemanha e Equador empatavam, a Costa do Marfim vencia Curaçao por 2 a 0, chegando aos mesmos seis pontos dos alemães, perdendo apenas no saldo de gols.
E é aí que o futebol nos transforma em idiotas convencidos. Quem, em plena sanidade, apostaria que o quase eliminado Equador poderia virar um jogo desses? Mas no futebol, o impossível é apenas uma opinião provisória. Nesta Copa, ainda havia a novidade das quatro partes de jogo, graças às paradas técnicas para hidratação — algo impensável em 1994, quando o calor de quase 40 graus fritava jogadores sem piedade.
O primeiro tempo terminou quente. Um pênalti foi marcado para o Equador, mas o VAR chamou Tori Penso para rever um lance anterior: Pavlovic havia levantado demais o pé no meio-campo e tocado a cabeça do meio-campista equatoriano. A árbitra anulou a penalidade. O jogo seguiu aberto, vibrante, imprevisível. Eu já não conseguia me levantar do sofá.
Os equatorianos jogavam como se cada segundo fosse o último. E então, aos 77 minutos, numa bola alçada na pequena área, Gonzalo Plata antecipou o veterano Manuel Neuer e decretou a virada histórica. O Equador estava vivo. O Equador estava classificado. Confesso: me emocionei. Quem não se emociona ao ver um Davi derrubar um Golias? Em quatro participações anteriores, o Equador jamais havia passado do quarto jogo. A única vez que chegou ao mata-mata foi em 2006, caindo para a Inglaterra. Agora, com 48 seleções, bastava chegar no primeiro mata-mata — mas isso não diminuía o feito.
Ainda sentado no sofá, tentei me recompor. Não sou equatoriano, mas algo naquela partida me tocou profundamente: a superação, a garra, a recusa em ser humilhado, a vontade de escrever uma história que ninguém acreditava possível. São coisas da vida. São coisas do futebol. E é por isso que, no fim das contas, ele continuará sendo — para sempre — a arte do improvável.