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Acordo Mercosul–UE: Quando a Reputação do Brasil Vira Barreira Comercial

Por Wellington Sena

 

O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, que começou a vigorar provisoriamente em 1º de maio de 2026, coroou mais de duas décadas de negociações e foi vendido como a criação de uma das maiores áreas de livre comércio do planeta, envolvendo mais de 700 milhões de pessoas e um PIB combinado superior a US$ 20 trilhões. Por trás dos discursos oficiais, porém, o desenho do tratado expõe assimetrias antigas, desconfianças renovadas e um modelo que tende a cristalizar o papel do Brasil como grande fornecedor de commodities, sob vigilância permanente e com pouca margem para disputar, em pé de igualdade, os segmentos de maior valor agregado.

 

Na Europa, a resistência mais ruidosa veio da França, onde o acordo virou bode expiatório de uma agricultura em crise estrutural, pressionada por custos altos, concorrência internacional e cortes potenciais em subsídios. Agricultores franceses temem uma “invasão” de carne e outros produtos do Mercosul, supostamente produzidos sob regras ambientais e sanitárias menos rígidas, e transformaram o tratado em símbolo de ameaça ao seu modo de vida. O resultado foi a exigência de salvaguardas e mecanismos de proteção que permitem à União Europeia suspender benefícios tarifários se julgar que suas cadeias produtivas estão sendo prejudicadas.

 

Esse clima de desconfiança não é apenas econômico; é também político e reputacional. No debate europeu, o Brasil aparece frequentemente associado a desmatamento, fragilidade regulatória e escândalos de corrupção, o que alimenta a narrativa de que o país seria um parceiro pouco confiável para um acordo de alta complexidade regulatória. A fama de “trambicagem” — essa ideia de que o “jeitinho” e a esperteza valem mais que a regra — funciona como atalho mental para justificar cláusulas mais duras de monitoramento, condicionalidades ambientais e portas de saída rápidas para o lado europeu.

 

O texto final do acordo reflete esse desequilíbrio. A União Europeia garantiu salvaguardas robustas para setores sensíveis, como carne bovina, aves, arroz, mel, ovos, etanol e açúcar, além de mecanismos para reverter concessões tarifárias em caso de “perturbação de mercado”. Já o Mercosul, e em particular o Brasil, obtém acesso ampliado, mas condicionado, a um mercado que continuará altamente regulado e pronto para acionar freios de emergência sempre que a pressão política interna europeia assim exigir. Em outras palavras, o livre comércio vem com cinto de segurança reforçado para o lado de lá.

 

Para o Brasil, o acordo promete ganhos imediatos em exportações agropecuárias e em alguns segmentos industriais, com mais de 80% dos produtos exportados ao bloco europeu passando a ter tarifa zero já nesta fase inicial. Mas a forma como o tratado foi desenhado tende a reforçar a especialização em setores de menor conteúdo tecnológico, enquanto a indústria nacional enfrenta concorrência europeia em áreas onde ainda luta para se modernizar. Sem uma política industrial consistente, o risco é aprofundar a desindustrialização, não revertê-la.

 

É nesse ponto que a reputação pesa. Quando o Brasil chega à mesa de negociação carregando o histórico de escândalos, insegurança jurídica e mudanças bruscas de rumo político, a UE se sente legitimada a exigir mais salvaguardas, mais relatórios, mais condicionantes ambientais e sociais. O discurso europeu de “precaução” se apoia, em parte, na percepção de que o país não cumpre o que promete, de que contratos podem ser reescritos ao sabor da conjuntura. A fama de “trambicagem” vira argumento silencioso para travas que, na prática, limitam a capacidade brasileira de usar o acordo como alavanca de desenvolvimento.

 

O paradoxo é que o próprio tratado, ao reforçar esse lugar subordinado, dificulta a mudança dessa imagem. Ao aceitar um modelo em que o Brasil é visto sobretudo como fornecedor de matérias-primas sob vigilância, o país consolida o rótulo de parceiro a ser controlado, não de igual a ser respeitado. Em vez de usar o acordo para negociar maior cooperação tecnológica, transferência de conhecimento e espaço para políticas industriais ativas, o foco recaiu em quotas agrícolas e cronogramas de redução tarifária, temas importantes, mas insuficientes para alterar a posição do país nas cadeias globais.

 

Do lado europeu, o Parlamento e governos nacionais usaram o tema ambiental como filtro político para o acordo, exigindo compromissos adicionais em clima, desmatamento e direitos trabalhistas. Embora essas agendas sejam legítimas, a forma como foram incorporadas reforça a ideia de que o Mercosul precisa ser tutelado. Em vez de uma parceria baseada em confiança mútua e responsabilidades compartilhadas, o que se vê é um regime de condicionalidades em que o Brasil precisa provar, continuamente, que é digno de acesso ao mercado europeu.

 

Nada disso significa que o país seja vítima passiva. A persistência de práticas opacas, a lentidão em fortalecer instituições de controle e a tolerância social com o “jeitinho” alimentam a percepção externa de que o Brasil é terreno fértil para irregularidades. Quando casos de corrupção, fraudes fiscais ou desrespeito a normas ambientais ganham manchetes internacionais, eles não são lidos como exceções, mas como confirmação de um padrão. O custo reputacional aparece, então, na forma de cláusulas mais duras, prazos mais longos e portas de saída mais fáceis para o parceiro rico.

 

O acordo Mercosul–União Europeia poderia ter sido a oportunidade para o Brasil confrontar essa imagem de frente, exigindo um desenho mais equilibrado, que reconhecesse também as falhas europeias — como subsídios distorcivos e barreiras não tarifárias disfarçadas de preocupação ambiental. Em vez disso, o país aceitou um modelo em que a desconfiança é institucionalizada, e em que qualquer deslize interno pode ser usado como justificativa para reverter concessões. O resultado é um tratado que, embora traga ganhos comerciais, cristaliza assimetrias e reforça estigmas.

 

Se o Brasil quiser que o acordo seja mais do que um grande contrato de commodities sob vigilância, terá de enfrentar, internamente, a cultura da esperteza e da informalidade que alimenta a fama de “trambicagem” e, externamente, negociar com mais firmeza para transformar desconfiança em cooperação. Isso passa por políticas ambientais consistentes, previsibilidade regulatória, combate efetivo à corrupção e uma estratégia clara de reindustrialização. Sem isso, o país corre o risco de celebrar um grande acordo histórico apenas para descobrir, alguns anos adiante, que entrou em uma nova era de dependência com cara de livre comércio.