
Prof. Wellington Sena
Os recentes episódios de violência sexual no Rio de Janeiro, como o caso de estupro coletivo noticiado pela Agência Brasil envolvendo cinco jovens que “praticaram atos libidinosos mediante violência física e psicológica” contra uma adolescente, reacenderam debates sobre machismo, patriarcado e o papel da masculinidade na sociedade contemporânea. Em meio às discussões, surgiram opiniões defendendo que a solução para tais crimes estaria na “desconstrução da masculinidade”. Embora essa leitura busque combater desigualdades, ela incorre em uma generalização que não resiste a uma análise mais profunda.
A masculinidade, em sua essência, não é sinônimo de violência. Ela é um fenômeno antropológico presente em todas as culturas humanas, associado historicamente a valores como responsabilidade, coragem, autocontrole e proteção. Milhões de homens vivem sua masculinidade de forma ética e respeitosa, contribuindo para suas famílias e comunidades. Reduzir a masculinidade a um vetor de opressão é ignorar essa realidade e transformar um conceito amplo e complexo em um estereótipo ideológico.
É fundamental distinguir masculinidade de comportamento criminoso. O que ocorreu no Rio de Janeiro não foi expressão de masculinidade, mas de violência deliberada, planejada e cruel. A própria nota oficial do Ministério das Mulheres destaca que o caso “exige resposta firme das instituições” e reforça a necessidade de educação para o respeito e o consentimento. Isso evidencia que o problema não está na identidade masculina, mas na ausência de valores éticos e na incapacidade de reconhecer limites.
Além disso, a violência sexual não é um fenômeno restrito a grupos específicos, tampouco a homens que expressam masculinidade tradicional. Casos como o de Jeffrey Epstein, envolvendo elites globais, mostram que a violência sexual atravessa classes sociais, níveis educacionais e contextos culturais. Quando crimes desse tipo ocorrem tanto em periferias quanto em ambientes de altíssimo poder econômico, fica claro que a causa não é a masculinidade, mas sim a combinação de impunidade, desvio moral e desumanização do outro.
Atribuir a violência sexual à masculinidade como um todo é uma explicação simplista que desvia o foco das causas reais. Em vez de promover transformações sociais, esse tipo de discurso tende a criar antagonismos entre homens e mulheres, dificultando a construção de soluções coletivas. A prevenção da violência exige união, não polarização. Exige responsabilidade compartilhada, não culpabilização genérica.
O caminho mais eficaz para reduzir a violência sexual passa pela educação — não pela negação do masculino. Educação para o respeito, para o consentimento, para a empatia, para o autocontrole e para a convivência ética. Esses valores não pertencem a um gênero específico; são fundamentos universais da vida em sociedade. Como afirma a nota do Ministério das Mulheres, é preciso promover “valores que reafirmem a dignidade e os direitos das meninas e das mulheres”. Isso se faz com formação humana, não com desconstrução identitária.
Também é importante reconhecer que homens e mulheres não são adversários. A defesa da dignidade feminina não exige a degradação do masculino. Pelo contrário: homens que vivem sua masculinidade de forma saudável são aliados fundamentais na construção de ambientes seguros. A ideia de que é preciso “enterrar a masculinidade” para respeitar mulheres é não apenas equivocada, mas contraproducente. O respeito nasce do caráter, não da renúncia à identidade.
Quando se transforma a masculinidade em inimiga, corre-se o risco de ignorar o verdadeiro inimigo: a violência. O que precisa ser desconstruído não é o masculino, mas a cultura da impunidade, a banalização da agressão, a incapacidade de ensinar limites e a ausência de políticas públicas eficazes. A masculinidade saudável não ameaça mulheres; a violência sim. E violência se combate com educação, responsabilização e justiça.
Por fim, é preciso reafirmar que a mulher merece ser respeitada e valorizada — e isso não depende de enfraquecer o homem, mas de fortalecer valores humanos. A sociedade avança quando homens e mulheres caminham juntos, reconhecendo suas diferenças, mas compartilhando princípios éticos comuns. A solução para a violência sexual não está em negar a masculinidade, mas em promover uma masculinidade madura, consciente e responsável, aliada à educação integral desde a infância.
Feliz Dia das Mulheres!