
João Trindade
(Advogado, professor, jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras)
Irrito-me e me dá uma “gastura” toda vez que pego um Uber e, quando vamos nos aproximando da rua em que moro, o GPS diz, com aquela vozinha suave: “Dobre em rua Cônego Luiz Gonzaga de Oliveira”.
Ora, não é “em rua”, mas sim, na rua. Vou para uma determinada rua; e não para uma qualquer. Seria “em rua”, se eu fosse para uma rua qualquer. Aí, sim: “dobre em qualquer rua à esquerda”.
Outros exemplos:
Houve um tiroteio “em Conde”; “Fórum de Conde”. “Prefeitura de Conde”.
Nenhum Conde comprou um fórum. O certo é Fórum do Conde. Há determinadas localidades que exigem artigo; outras não. O primeiro é o caso do Conde, que, não sei por que, o site daquela localidade modificou, há algum tempo: trocou a contração de+o, que resulta em do pela simples preposição de. Não nos esqueçamos de que o nome da fruta é Fruta do Conde; e não de conde; e o nome da cidade não é em homenagem a um conde qualquer, mas a um determinado Conde: o Conde Maurício de Nassau!
Praça “de alimentação”?
Juro que dá vontade de qualquer dia ir a qualquer shopping com um prato de feijão na mão, garfo e faca (ou uma colher). Certamente, os seguranças vão me barrar e imagino o diálogo:
– Ei, aonde vai? Não pode entrar com esse prato de comida não…
Responderei, insistindo:
– Mas vou para a “Praça de Alimentação”.
Vão me barrar, é claro. Mas estarão cometendo, sem culpa deles, mas sim do modismo que se instaurou, um erro de caráter semântico-gramatical.
Ora (sim, ora, mais uma vez!), não é uma praça de alimentação, porque, se assim o fosse, eu poderia entrar com meu prato de feijão. É a praça da alimentação, porque, naquele local, a alimentação (elemento determinado) é feita ali.
Numa
Outro modismo ridículo é haverem abandonado, de vez, a contração numa, estilisticamente maravilhosa. Alguém, que também não sei quem foi, disse que é “errado” usar numa e estão substituindo, sistematicamente, pelo horroroso “em uma”.
Usar a contração numa não é errado e é estilisticamente belo. Exemplos:
“Numa luta de gregos e troianos,
Por Helena, a mulher de Menelau
Conta a história de um cavalo de pau
Terminava uma guerra de dez anos (…)”. (Mulher Nova, Bonita e Carinhosa – letra de Otacílio Batista).
Imagine se o autor dos versos, tivesse escrito:
“Em uma luta de gregos e troianos”… Adeus, poesia!
“Numa noite de escuro, Antônio Silvino atacou o Pilar (…)”. (Fogo Morto – José Lins do Rêgo).
“Numa noite linda nos encontramos
Junto ao lago azul de Ypacaraí” (Recuerdos de Ypacaraí, Letra de Zulema de Mirkin. Versão: Recordações de Ypacaraí, de Juracy Rago).
Portanto, leitor(a):
Não dê uma de GPS e, caso vá num táxi (em João Pessoa a maioria não tem, absurdamente, o recurso aludido), não diga ao motorista:
“Entre em avenida Epitácio Pessoa”. Diga: entre “na Avenida Epitácio Pessoa”.